Texto crítico e tão atual, da amiga Lúcia Rodrigues. Nesta era da imagem, da fama, do ter prevalecer sobre o ser, é importante pararmos para refletir sobre a importância que damos às aparências...
Abraço,
Andréa Freire
Editora
Jornalista e Psicanalista
Aparências, só aparências e nada mais!
Quando iniciei minha vida escolar aos seis anos,
percebi que mesmo criança as pessoas se preocupam muito com as aparências. Uma
coleguinha me perguntou por que eu usava o uniforme de saia de brim e não de casimira
como todas outras. Achei melhor não dar a resposta que ela merecia e fingir que
não entendi, tática que aplico até hoje com vários dezoitos anos.
No ginásio a mesma pergunta: porque usava o mesmo
vestido em todas as ocasiões? Depois de alguns anos já estudando em São Paulo,
soube que ela tinha sido uma das finalistas do concurso de miss Sorocaba, daí
percebi como a aparência devia ser muito importante para ela.
Aos vinte e um anos, quando estava com meu diploma
na mão, já trabalhando, pois sempre fui muito precoce, uma das “meninas” da faculdade,
rica, mas já com muitas plásticas no rosto me ofereceu gentilmente sua ajuda dizendo:-
“agora que você está formada e trabalhando eu posso te ajudar a fazer um novo
guarda roupa, vamos para Rua Augusta, o must
da época, e compraremos roupas mais adequadas”
etc.. Naturalmente respondi que sim, mas sabendo que não precisava, pois estava
economizando para comprar meu primeiro apartamento. Na ingenuidade desses anos
nunca respondia o que realmente estava pensando, apesar da resposta estar na
ponta da língua.
Há alguns anos passados, precisei renovar meu
guarda-roupa, pois fui fazer um estágio nos Estados Unidos, e sempre super
ocupada fui até o Shopping Iguatemi em São Paulo. Considerado o mais
tradicional achei que lá encontraria as roupas que gostaria de levar.
Entrei em uma renomada loja à noite, logo após a
saída do trabalho, observei todas as vendedoras conversando, sem nenhum cliente.
Ninguém veio me atender. Perguntei quem era a gerente e a esta me dirigi.
Gastei uma pequena fortuna e paguei a vista com meu cartão platino (empresarial).
Mas achei que deveria dar uma lição nessas pessoas
que julgam só pelas aparências e disse a todas: “- o que gastei aqui hoje vocês
não ganham em um ano, aprendam a tratar todos como iguais ou como vocês
gostariam de ser tratadas”.
Talvez vocês pensem que eu andava tão mal vestida, não
apenas não tinha costume de ir de salto alto trabalhar com vestidos de festas, sempre
usei preto e sapatos confortáveis, pois minhas preocupações eram outras.
Em empresas que exigiam outro tipo de costume fui
eleita a mais bem vestida muitas vezes, mas nunca dei importância a esses títulos,
pois sempre me preocupei com o conhecimento. Mesmo quando estava nos Estados
Unidos, eles achavam que eu era muito elegante e fina.
Bem, tenho muitos casos para contar nesses dezoitos
anos, mas para terminar vou descrever um horripilante. Há pouco tempo quando
saí do meu trabalho para ir almoçar, deixei meu carro e fui andando para fazer
uma caminhada. Eu usava jeans e uma blusa de linha listrada (o qual gosto muito,
de excelente qualidade, que comprei quando fui fazer um estágio na Alemanha).
Fui parada por duas motocicletas com policiais, me
cercaram, pediram todos os documentos e eu não estava entendendo nada. Quando
mostrei até os tais cartões platino, cheque com mil estrelas, documento do
super carro e eles não me deixavam “escapar” fiquei aterrorizada. Percebi que
estava sendo interrogada por alguma coisa grave. Ah, mostrei até a carteira
profissional com o Dr. na frente do meu nome. Ficaram cerca de meia-hora ali na
rua examinando tudo, para depois me dizerem que eu não era quem eles estavam
pensando.
Fui andando, ou melhor, correndo para casa e quando
cheguei tremia tanto e desmaiei. Minha família queria saber os nomes, mas eu
estava tão aterrorizada que nem me lembrei de ver o crachá. Desde aquele dia só
vou de carro, até para ir à esquina comprar pão.
Escrevendo este caso eu me pergunto: se estivesse
vestindo sapatos altos, mesmo de qualidade inferior a minha sapatilha, vestido
de “perua”, será que eles teriam me parado para averiguações?
Caras amigas, conselho de experiência: somos
julgadas pela aparência sim, pois com toda minha história de vida fui roubada
duas vezes, objeto de muito valor mesmo, obtido com muitos anos de trabalho e economia
para não dizer privações por pessoas com carrões importados e roupas de grife.
Só posso dizer que aquele velho ditado (deve ser
muito antigo mesmo) que se conhecem as pessoas pelos sapatos está muito errado,
pois essas pessoas usavam sapatos caríssimos, ou melhor, usam até hoje. “Estão
por aí enganando as pessoas crédulas com sua boa” aparência e lábia.
Vibrações positivas e um alto astral para todas,
porque a fila anda.
Lúcia Marina Rodrigues
Colunista